segunda-feira, 29 de abril de 2013

As "Clarices" de Bollina

Artista desde pequena, atriz de musicais, admiradora – e, de algum modo, seguidora – de Clarice Lispector. Assim é Luciana Bollina, jovem escritora com muitas histórias a contar. A primeira delas a virar romance, Clarices, é uma homenagem à escritora que lhe encorajou a dar asas à sua “escrita profunda”. A história de amor entre a artista plástica Clarice e o poeta de rua Gabriel aconteceu, parte dela, na vida real – e tomou forma de romance, de alma jovem e escrita literária, neste que é o primeiro livro da autora. Nesta entrevista a Shahid, Bollina fala sobre a sua literatura, criação, escritores que a inspiram e adianta seus novos projetos – por enquanto, um livro de contos e uma peça musical.


Você é atriz, bailarina e cantora. Quando se interessou também pela literatura?
Sempre gostei de escrever e inventar histórias para os meus irmãos mais novos. Mas eu escrevia mais em diários, como quase toda menina. Desde muito nova, sempre estive apaixonada por alguém e isso me levava a escrever e projetar sonhos no papel. Acontece que cresci e continuei escrevendo, sobre tudo o que me fazia pensar. Era como um exercício para mim mesma, bem auto-biográfico. E com a leitura, tive vontade de começar a contar histórias também. Alguns autores são os culpados disso, porque me apaixonei por eles. 

Clarices conta, em meio a conflitos e (des)encontros, a história de uma jovem em busca do amor e do seu lugar no mundo. Como nasceu a história?
Essa história aconteceu comigo. Não como no livro, mas foi inspirada num fato verídico. Eu estava saindo de uma loja quando encontrei um poeta vendendo seus livrinhos artesanais. Achei-o interessante e puro, não sei, e acabei comprando seu livro por cinco reais. No livro, havia seu e-mail, e resolvi lhe escrever dizendo o que tinha achado da obra. Ele me respondeu marcando um encontro. Acho que aquilo nunca tinha acontecido com ele, com certeza nunca tinha acontecido comigo. Nos encontramos, conversamos muito, mas nunca mais o vi. E criei milhões de histórias que poderiam ter acontecido. Escrevi um conto por causa desse encontro e, depois de anos, tive vontade de transformá-lo em romance. E essa história foi apenas o estopim para que eu colocasse no papel muitos questionamentos que sempre me acompanharam.

Como se deu o processo de escrita desse seu primeiro romance? Você acha que a experiência com outras formas de arte a ajuda como escritora?
Com certeza ajuda. Tanto é que dentro do livro acontecem duas peças – uma das personagens é atriz, o mocinho é escritor e a Clarice é artista plástica! Tentei colocar no livro um pouco da minha realidade. É disso que sei falar, porque vivo. Mas hoje tenho muita vontade de criar uma história totalmente diferente das coisas que eu vivo e sinto. Por exemplo, a história de um assassino que é obcecado por matemática! Como exercício, acho que seria maravilhoso. Mas acredito que nunca vou poder fugir da minha experiência. É através dos meus olhos e do meu sentimento que crio. Uma história inventada nunca é tão inventada assim. 

O título do livro remete sutilmente à Clarice Lispector. Foi proposital? Que relações há entre as histórias dela e a sua?
Esse título surgiu, na verdade, porque coloquei o nome da minha heroína de Clarice. E não foi por acaso. Eu comecei a dar asas à minha escrita profunda, como costumo chamar, por causa dessa escritora. Quando li Clarice Lispector, assim como muitas mulheres, fiquei paralisada, em êxtase e louca para colocar para fora tudo aquilo que sentia. E só pela escrita achei que seria possível. Primeiro escrevi uma peça, chamada Voo, que montei e representei. Era um monólogo em que eu dizia coisas que estavam travadas na minha garganta. Que, incentivada por Clarice, consegui disparar. Fiquei em cartaz durante dois meses em São Paulo e depois fui para Curitiba. Mais tarde, tive vontade de montar um blog e continuar dando asas a novos voos. Então, na verdade, o nome da minha heroína – e o título do meu primeiro livro – é uma homenagem a essa grande mulher que me encorajou a revirar e me mostrar como sou. 

Que outros escritores a influenciam? 
Eu adoro Hermann Hesse, Machado de Assis, Virgínia Wolf. Agora estou lendo James Joice e ele está abrindo a minha cabeça. Também tenho um fraco pela poesia de Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e Hilda Hilst. Todos eles são professores maravilhosos com quem gostaria de tomar um café. Os contemporâneos que me instigam e admiro são Godofredo de Oliveira Neto, com seu romance Menino oculto, e Marcelino Freire, com seus contos em Angu de sangue.

Você já tem novos projetos na literatura?

Tenho um novo projeto, mas não se trata de um romance. É uma peça musical. Eu, como atriz de musicais, tenho vontade de realizar um totalmente brasileiro e moderno, que fale com a juventude – que não frequenta teatro, muito menos teatro musical. Está sendo um desafio, mas estou me esforçando. Além disso, quero reunir meus melhores contos, que estão todos na gaveta, e publicá-los. Acho que Marcelino Freire é quem está me fazendo ter vontade disso. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Traduzindo Hannah, do Brasil à Europa


Traduzindo Hannah, lançado em quatro países da Europa, é seu segundo romance – mas o bastante para consagrar Ronaldo Wrobel ao lado dos grandes nomes da literatura brasileira. É nesta condição que ele integra a comitiva de nove escritores que viaja este mês à Alemanha para, numa espécie de missão pré-Frankfurt, apresentar ao país nossa literatura. Nesta entrevista a Shahid, antes de embarcar, no dia 12, Wrobel falou sobre a viagem, o começo da carreira, influências que o inspiram – entre elas o judaísmo – e a repercussão de Traduzindo Hannah. "Parece óbvio, mas são os leitores que têm promovido o livro tanto aqui quanto lá fora", diz.


Traduzindo Hannah (Record) é um romance de temática judaica, recheado de ensinamentos e reflexões sobre a vida. Qual a origem desse repertório? Sua própria vivência, outros livros...?
O judaísmo vem se transmitindo através de boas histórias há alguns milênios. Trata-se de um povo e de uma cultura que combinam perfeitamente com literatura, teatro e cinema. Enquanto escrevia Traduzindo Hannah, conversei com gente que viveu a Era Vargas e li ótimos livros, como as memórias do advogado Samuel Malamud sobre a comunidade judaica da Praça Onze. Mas a maior inspiração para o romance veio de avós, tios-avós e primos chegados do Leste Europeu nos anos 20 e 30. São as matriarcas e os patriarcas do meu espírito judaico.

E de onde você tirou a ideia da busca aflita de Max Kutner por Hannah – e, com o passar da história, por si mesmo? Melhor: que questões o motivam a escrever?
Sempre gostei de personagens que enfrentam transformações essenciais no curso da história. Um romance que aborda esse processo e me impressionou muito na juventude é O Fio da Navalha, de Somerset Maughan. Em cinema, admiro O Show de Truman, sem falar nos filmes de Woody Allen. Não vejo graça em histórias sem riqueza psicológica. De que adianta o personagem cruzar mares e desertos se isso não for capaz de mudá-lo?

Quando e por que decidiu se tornar escritor?
Nunca decidi me tornar escritor. Eu já escrevia quando criança, sem saber se aquilo me fazia ou faria escritor. Assumi que era escritor lá pelos 25 anos, quando resolvi pôr no papel um romance chamado Propósitos do acaso (Nova Fronteira), que amarelava na minha imaginação. Terminar o romance e publicá-lo foi um grande susto.

Propósitos do acaso também remete à cultura judaica. Qual a importância, para você, de explorar o tema?
Cresci ouvindo histórias de avós, tios-avós e primos judeus que vieram da Europa Oriental para o Brasil nos anos 20 e 30. Eram histórias fantásticas, com guerras, revoluções, fugas, pobreza, separações - tudo contado de um viés judaico. Havia drama e comédia e eles sempre se emocionavam, chorando e rindo ao mesmo tempo. Não faltavam controvérsias e até discussões sobre o que realmente teria acontecido. Depois, todo mundo ia comer. E comer bem!

Traduzindo Hannah foi muito elogiado e agora começa a alcançar o mundo (com lançamentos na Espanha, Itália, França e Alemanha). Esperava essa repercussão? O que fez para consegui-la?
Sem entrar no mérito do livro, atribuo essa repercussão inesperada à propaganda boca-a-boca. Foi isso que levou o romance à segunda edição brasileira. No caso das edições estrangeiras, duas delas foram influenciadas por brasileiros que moravam na Europa ou conheciam europeus. Parece óbvio dizer isso, mas são os leitores que têm promovido o livro tanto aqui quanto lá fora.

Você está entre os nove brasileiros selecionados para divulgar nossa literatura na Alemanha nesse período pré-Frankfurt. Quais as suas expectativas para a viagem?
Nunca estive numa feira literária estrangeira e estou entusiasmado. É impressionante o carinho com o qual escritores do exterior são recebidos em eventos como a Flip e Fliporto. A diferença é que não vou viajar sozinho, em caráter privado. Somos nove escritores brasileiros numa viagem precursora da Feira de Frankfurt e nossa agenda será voltada para a divulgação da literatura nacional. Existe uma finalidade institucional que vai ser sempre levada em consideração.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Cinquenta anos de poesia


Aos 17 anos, Lélia Coelho Frota reuniu as poesias que viriam a compor seu primeiro livro, Quinze Poemas, e bateu à porta do gabinete de Carlos Drummond de Andrade, que, na época, trabalhava no Ministério da Educação (RJ). Ele a recebeu bem, fez sugestões sobre os versos e os dois se tornaram amigos. Como se não bastasse, após ver uma exposição de Milton Dacosta e se apaixonar pelas pinturas do artista brasileiro, procurou-o e pediu que ilustrasse esse mesmo livro, lançado em 1956.

Esses episódios marcam os dois principais caminhos que a poeta, antropóloga, crítica e curadora de arte Lélia Coelho Frota (1938-2010) iria trilhar ao longo da vida: a poesia e as artes plásticas. Premiada com o Jabuti e com o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras pelo livro Menino Deitado em Alfa (Quíron, 1978); amiga de Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meirelles; admirada por Ferreira Gullar, Henriqueta Lisboa e Otto Lara Resende, entre outros grandes nomes da poesia e literatura brasileira, a escritora também teve atuação importante no resgate e valorização da Arte Popular Brasileira.

Foi diretora do Instituto do Folclore da Funarte – atual Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular –, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Como autora na área das artes plásticas, elaborou o Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro - século XX (Aeroplano, 2005), o primeiro e único livro a reunir e organizar informações sobre 150 criadores de fonte popular, entre outros títulos.

Em 2001 ajudou a fundar a editora Bem-Te-Vi Produções Literárias, onde ocupou o cargo de diretora editorial até sua morte em 2010. Agora, a mesma Bem-Te-Vi presta uma homenagem a Lélia publicando sua obra poética completa, com a reunião de todos os seus livros de poesia.

Lançamento de Poesia Reunida – Lélia Coelho Frota (1956-2006) 
Data: 14 de março, às 19h 
Local: Livraria Argumento Leblon


terça-feira, 12 de março de 2013

Teco e a vida real


Nada de brincadeiras ou fantasias. O universo do menino Teco – protagonista do "juvenil" Teco, o garoto que não fazia aniversário (Editora Barcarolla), escrito a quatro mãos por Marcelo Mirisola e Furio Lonza, e ilustrado por André Berger – retrata mesmo é a realidade – e a sua face mais dura. Ao tentar escapar da festa do seu aniversário de nove anos, Teco conhece o palhaço Cachacinha – sua porta de entrada à vida nas ruas, regada a álcool, drogas e pancadas. Famoso por sua irreverência como escritor, Mirisola fala nesta entrevista sobre a pertinência do livro – do qual espera desdobramentos –, critica a vaidade do "meio" literário e lamenta a dificuldade de comunicar suas histórias a um público mais amplo.

Seu livro mais recente, Teco, o garoto que não fazia aniversário, tem como protagonista um garoto de nove anos, ao mesmo tempo que trata de questões do universo adulto, como drogas e alcoolismo. Pensando em que público este livro foi escrito?

Basta dar uma volta pela Praça da Sé pra perceber que droga e alcoolismo não são problemas restritos ao mundo adulto. Se você fizer a mesma coisa na rua Oscar Freire vai perceber que droga e alcoolismo não distinguem faixa etária, tampouco classe social. Pensamos, eu e o Furio Lonza, co-autor do livro, no público inteligente. Talvez seja esse o grande defeito do livro.

De onde veio a ideia da história e dos personagens?
Tudo começou com o nome dos palhaços. Primeiro, veio o Cachacinha, que é uma brincadeira com um amigo biriteiro que faz (ou fazia) shows para crianças. Aí eu inventei o Alambique. A partir daí a história criou corpo, deslanchou e promete desdobramentos. Vamos ver.

Você é considerado um escritor irreverente e polêmico. Essa marca atrapalha ou estimula seu trabalho?
O problema é que ser irreverente no Brasil de 2013 é diferente de ser irreverente na Inglaterra do final do século 19. Aqui e agora, Kléber Bambam é o que temos de mais parecido com Oscar Wilde, G.K Chesterton e Shaw... Fica difícil.

O que move suas escolhas, de tema e linguagem, como escritor? Acha que falta irreverência na literatura produzida hoje?
Não adianta nada ter repertório, ou linguagem, como você diz, se não há correspondência por parte de um grande número de leitores. Meu leitorado é restrito e, vá lá, iluminado, mas não paga minhas contas. Por outra via, meus pares que podiam facilitar as coisas pro meu lado, e me arrumar uns prêmios em dinheiro, viagens e diversão, me ignoram solenemente. O que conta nesse "meio" é vaidade e tapete puxado. Azar o meu, azar o deles. Daí que eu não me movo, apenas chafurdo. Estou de mãos atadas, e continuo publicando um livro melhor que o outro. Acho que sou masoquista.

Quais são as suas referências na literatura?
Dona Marietta, maior referência literária da segunda metade do século 20, e do primeiro decênio deste novo milênio. Ela que me sustenta.

Se tivesse que destacar um livro seu, entre os mais de dez que publicou, qual escolheria?
Joana a contragosto, publicado pela Record em 2005.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Vida, arte e luta


Na lista dos mais vendidos desde que foi lançado, o livro Giane - Vida, arte e luta (Sextante) – biografia de Reinaldo Gianecchini contada pelo jornalista e escritor Guilherme Fiuza – faz um retrato da vida do ator, da infância no interior ao reconhecimento e à fama, expondo com delicadeza a doença que enfrentou. Nesta entrevista feita pela Sextante, Giane relembra suas histórias e fala sobre os bastidores do processo que resultou no livro.

Você tem apenas 40 anos e sua vida já dá, por assim dizer, um romance, uma novela – uma biografia, enfim –, com os muitos lances de aventura que você viveu, o mergulho na vida. De onde surgiu a vontade de escrever essa história?
O motivo se chama Guilherme Fiuza, o autor do livro. Eu sou muito fã do Guilherme como jornalista, tinha certeza de que ele faria um trabalho magnífico, fiquei curioso para saber como ele contaria a minha história. E, de fato, não me decepcionei. Eu acho o livro brilhante do ponto de vista da narrativa. Ele conta a minha história como se fosse um filme, com dramaturgia; e você acompanha cada passo, curtindo de uma forma muito saborosa, com imagens bonitas e fortes.

Você ainda tem a gana de morar no exterior, tantas vezes relatada no livro?
Tenho. Sinto que ainda vou fazer – há alguns lugares no mundo onde eu sinto que tenho de morar, ao menos por uma temporada. Eu sou cidadão do mundo. Tenho que estar sempre em movimento. A minha base vai continuar sendo o Brasil, porque hoje em dia é onde eu quero que meu trabalho esteja centrado, mas gostaria de ter o prazer de morar em alguns lugares como Londres e Nova York. E mais alguns.

Pelo livro, você já fez muita coisa nessa vida. O que está faltando?
Está faltando muita coisa de trabalho – por exemplo, não fiz o cinema que eu gostaria de ter feito. Eu me orgulho das várias participações, mais ainda não fiz O filme, interpretando um personagem que pudesse ser um mergulho muito profundo. E também a minha instituição para cuidar de crianças, adolescentes e idosos no interior de São Paulo, em Birigui. Esse sonho está prestes a se realizar, mas não sossego enquanto não estiver a mil por hora, ajudando muita gente.

Como foi o processo de entrevistas com Fiuza? Ele conta que chegou a gravar sete horas seguidas com você, e que nunca fizera isso antes...
Foram várias sessões de conversa que pareciam mais terapia do que outra coisa! Fui passando e repassando minha vida a ele, lembrando vários detalhes, cenas que eu já não recordava, sentindo cheiros que vinham lá do passado e que eu tinha esquecido... Foi muito especial, um trabalho de muita confiança. Foi um mês de entrevistas e muito prazeroso. Tinha horas que eu me esquecia de beber água, ir ao banheiro, a gente emendava num papo que era muito bom.

Quais foram os momentos mais delicados de lembrar ao longo do processo de elaboração?
A parte da doença. Eu não tenho nenhum problema de falar dela, mas acabei de sair do processo, e estou muito feliz, com muita vontade de falar de coisas novas. Voltar à doença e reviver tudo aquilo foi talvez a parte menos agradável, mas muito necessária. O resto foi tão divertido de relembrar! Foi muito interessante toda a articulação.

Seu jeito de bom moço e o temperamento gentil são unanimidade nacional. Além disso, você prima pela discrição. Mas o livro expõe alguns momentos de fúria, destempero e angústia profunda. Algum desses momentos te causou tensão ao ser revelado?
Não. A ideia do livro era NÃO me pintar como super-homem, um ser acima do bem e do mal. A ideia era essa mesma: mostrar os meus defeitos, as minhas limitações, meus momentos de fraqueza, irritação. Eu acho divertido mostrar que tudo faz parte do que se é. No começo, fiquei meio aflito com a exposição de outras pessoas no livro. Mas logo relaxei – vi como o livro trata com delicadeza e elegância todos que participam dele. E conta a minha história sem entrar em detalhes que não são de nenhuma importância ou que não devem ser divulgados, não devassa a intimidade da minha ex-mulher ou de amigos. E eu tinha essa prerrogativa – se eu não concordasse, poderia pedir para tirar. Mas eu concordei com tudo e acho que tudo o que ele escreveu é relevante e necessário. E não ficou faltando nada.

Qual é sua sensação ao terminar de ler a própria história?
Eu comecei aflito e terminei absolutamente contente de ver uma história tão bem contada. Foi muito bem retratada – quase com poesia, em vários capítulos. Um exemplo é o retrato do fim do meu casamento, Fiuza retratou direitinho como foi. O livro é perfeito mostrando que a gente tem que estar sempre tomando as decisões que levam a algum lugar. E essas decisões têm consequências, todas elas. Essa foi a minha vida: a criança de Birigui, depois saindo de lá, enfrentando a cidade grande e morando fora do país, tomando decisões de seguir o seu destino. Fiquei orgulhoso de ter a minha história contada tão bem. E fiquei até surpreso: achei a minha vida bem interessante!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

No ritmo do samba


Anos de pesquisas sobre o universo do samba, conversas com a velha guarda da Portela, um pulo no Recôncavo Baiano para ver de perto o samba de roda. Desse passeio popular – inspirado por sua "cabrocha", como brinca o autor – nasceu o livro Histórias do samba – de João da Baiana a Zeca Pagodinho (Matrix), que o pesquisador e escritor Marcos Alvito acaba de lançar. Saído do forno às vésperas do carnaval, o livro reúne cem histórias curiosas sobre este que é o gênero musical mais querido do Brasil. Em conversa com a Shahid, Marcos fala sobre o prazer – e a responsabilidade – de popularizar um tema que estuda desde 1998, relembra um e outro "causo" e promete um segundo volume de histórias. "Tudo sem pressa, no ritmo do samba", adianta.


Histórias do samba conta cem histórias no mínimo curiosas sobre esse gênero musical. Como nasceu a ideia de reuni-las em livro?
Eu sou professor na UFF e, há mais de dez anos, utilizo o samba como fonte histórica em sala de aula. Mas faltava um impulso que me levasse a escrever as histórias. Totalmente apaixonado por uma cabrocha, que é professora de Literatura, comecei a escrever uma história por dia e a enviar os textos a ela. Depois começamos a namorar e eu continuei lhe mandando as histórias, que ela comentava, sugeria mudanças... Posso dizer que o livro nasceu de dois grandes amores: pelo samba e pela cabrocha Licia Paranhos.

Como foi o trabalho de resgate dessas histórias?
Eu fui pesquisando ao longo de mais de dez anos, enquanto preparava cursos, escrevia artigos e fazia incursões no mundo do samba: conversas com a Velha Guarda da Portela, rodas de samba por toda a cidade, uma ida ao Recôncavo Baiano para conhecer o samba de roda. Tudo sem pressa, no ritmo do samba.

Que nomes do samba figuram nesses "causos"?
Há sambistas "clássicos" como Noel, Nelson Cavaquinho, Cartola. E há também histórias de compositores fundamentais, com músicas muito conhecidas e importantes, mas que ainda são desconhecidos do grande público. É o caso de Romildo, que compôs, junto com Toninho Nascimento, o famoso "Contos de Areia", que levou Clara Nunes ao topo da parada de sucessos. É aquela que começa "É água no mar...". Aliás, tem uma história gozada sobre isso, que eu não conto no livro mas conto agora: a letra original dizia "É lua no mar...". Mas Romildo, na hora de gravar a fita para mandar para Clara Nunes, sempre errava, dizendo "É água no mar...". Depois de várias tentativas, o parceiro desistiu: "Manda esse negócio assim mesmo". E foi um sucesso nacional.

É possível destacar, entre tantas, a história mais inusitada?
Há muitas. Mas tem uma que eu adoro. Às vésperas do carnaval de 1912, morre o Barão do Rio Branco, um político importantíssimo, figura de destaque na monarquia e também na república. O governo resolve suspender o carnaval, prometendo realizá-lo em abril. Avisa aos jornais, convoca os cordões e todo mundo diz estar de acordo. Mas na sexta-feira o povo não quer nem saber, faz o maior carnaval. E pula de novo em abril, conforme combinado. Foi o único carnaval com bis da história.

Você estuda o samba desde 1998. Como foi trazer ao público, de forma tão leve, curiosidades sobre um tema com o qual costuma lidar como pesquisador?
Foi um prazer imenso. Mas também uma responsabilidade: há que ter um compromisso em não trair a tradição do samba e dos seus valores. Por trás da informalidade, há uma filosofia e uma ética.

Qual o valor da cultura do samba para a nossa sociedade?
O samba é como o rio Amazonas, cuja grandeza se deve também a seus afluentes. Acabaram por desaguar nele muitas outras formas musicais como o lundu, o calango, o jongo. Ele foi fruto de uma longa tradição afro-brasileira e ao mesmo tempo sofreu mudanças que permitiram a esta tradição dialogar com novos desafios.

Em entrevista ao jornal O Globo, você diz que planeja um segundo volume de histórias do samba. Podemos esperar?
O segundo volume virá naturalmente, porque há um mar de histórias sobre o samba e seria uma injustiça contar somente cem. Vou escrevendo as histórias no mesmo ritmo do primeiro volume, uma por dia, para poder saborear. O samba nos ensina que devagar também é pressa e que às vezes a lentidão proporciona mais prazer.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sexo, Champanhe e Tchau


O que é o amor? Como amar de verdade em tempos virtuais? Qual a diferença entre obsessão e paixão? É possível separar amor e sexo? O que fazer depois que o romance acaba?

Sexo, Champanhe e Tchau, escrita por Mônica Montone e dirigida por Juliana Betti, fala sobre o que não é o amor. Trata da estranheza provocada por certas relações que nos colocam frente a frente com nossos medos e obsessões. O texto, poético e sensível, também relata as dificuldades de lidar com a passagem do tempo e a adaptação à vida adulta.

Durante os cinquenta minutos da peça, a personagem Jezebel tenta entender essas questões, num diálogo intenso e bem humorado com Ela. A montagem, simples e funcional, busca valorizar o gesto e a palavra. Para isso as atrizes Ana Cecília Mamede e Mônica Montone (respectivamente nos papéis de Jezebel eEla) utilizam apenas duas cadeiras, que ganham novas funções com o desenrolar da história.

Antes desta montagem, a peça participou do ciclo de leituras dramatizadas das unidades do SESC-RJ e acabou virando livro, publicado pela editora Oito e meio. "Mônica Montone nunca perde o senso crítico e o tom do humor, mas deixa se levar também pelo romantismo de sua veia poética", avalia Paulo Betti, que assina a orelha da obra.

Local: SESC Casa da Gávea 
Data: 11 de janeiro a 24 de fevereiro 
Horário: Sextas e sábados, às 21 h. Domingos, às 20h 
Endereço: Praça Santos Dummont, 116, Gávea 
Telefone: (21) 2239-3511 
Ingresso: R$ 40 (estudantes e associados pagam meia)